Ana Lúcia de Medeiros

10/03/2016

Artigo:

A quem interessam os incentivos?

Em meados do século XVIII surgiu na Inglaterra o que a literatura declarou de a primeira revolução industrial. Com ela veio o espírito do capitalismo e uma série de pensadores, especialmente “filósofos economistas”, que começaram a teorizar sobre o novo modo de produção, ou o novo modo de produzir e de distribuir a riqueza nas nações e entre as nações. Foi nesse período que surgiram algumas expressões que até hoje são repetidas sem muitas contestações por pessoas que se autodeclaram “pensadores”. Apesar de estarmos a mais de trezentos anos à frente, costumamos ouvir com muita frequência “deixemos o mercado livre que a mão invisível se encarregará de ajustá-lo”. Os que reproduzem essa frase estão convictos de que o mercado resolve tudo e fará isso da melhor maneira possível, por ser impessoal e meritocrático, ou seja, a remuneração dos fatores de produção (trabalho e capital) ocorrerá a partir do esforço individual e do que cada um contribuirá com a produção total. Trabalhe mais e ganhe mais! Esforce-se e será recompensado! Esse sistema criou a cultura dos incentivos, e, daí, pergunto: a quem verdadeiramente interessam os incentivos? Ao trabalhador precarizado, ao consumidor alienado que sonha em ter um carro novo, que deseja realizar viagens intercontinentais, que sonha em ter uma “Louis Vuitton”? Ao empresário sedento em ver o seu capital acumular cada vez mais e ao sistema bancário que se alimenta dos dissabores dessa própria cultura? Interessa ao sistema-mundo? Há trezentos anos foi deflagrada a cultura dos incentivos, e: estamos melhores do ponto de vista civilizacional? Ah, não importa, eles interessam mesmo a uma sociedade cuja posição central cabe ao homo economicus!

E quem é esse homo economicus? O que produz e consome? O que ensina? O que aprende? Quais as suas paixões? Onde encontrá-lo? O homo economicus, é um sujeito padrão que tem racionalidade ilimitada, se orienta a partir dos seus próprios interesses, é egoísta, e, pasmem! Segundo alguns economistas da corrente liberal, uma sociedade constituída por eles certamente alcançará riqueza e glória. Essa é a regra de ouro para a “riqueza das nações”. Este “sujeito” (a)sujeitado ao sistema não acredita na possibilidade de existir “almoço grátis” porque supõe que a natureza humana é orientada somente para o “ter”. Ter dinheiro, ter imóveis, ter sucesso.... O homo economicus está em toda parte, nas organizações privadas, nas instituições, e, todos os dias certamente nos encontramos com muitos deles. São rostos anônimos nas ruas, são nossos vizinhos anônimos e companheiros de trabalho.

E o que será do sistema-mundo se insistirmos com a crença de que os seres humanos reagem a incentivos? O que construímos em três séculos com a cristalização da cultura de que não existe almoço grátis? Obtivemos progresso? Sim! Mas a que custo? Quantas crianças são assassinadas por não ter assistência do Estado porque muitos do que estão lá, reagem a incentivos e querem o seu quinhão, querem ficar ricos, basta se corromper, pois, há incentivos para isso. Quanta natureza morta! Quanta miséria! Até quando ficaremos presos dentro dos nossos próprios castelos?

Podemos construir um mundo melhor sem necessariamente sermos orientados pelo homo economicus? Cabem dentro da nossa realidade social valores que orientam a vida pela perspectiva da ética, do trabalho enquanto ato que nos guarda como ser humano digno, da solidariedade e do amor?


Ana Lúcia de Medeiros

Economista, Professora de Economia da UFT e Diretora do Campus de Palmas da UFT.



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